Pular para o conteúdo
Têxteis.com.br

Processo de Desengomagem Têxtil: O Que É, Como Funciona e Por Que É Essencial

Entenda o processo de desengomagem têxtil — etapa fundamental na preparação de tecidos. Métodos enzimáticos, oxidativos e ácidos explicados em detalhes.

Por Equipe Têxteis · 13 min de leitura
Compartilhar:

Publicidade

A desengomagem é a primeira etapa do beneficiamento têxtil primário, responsável por remover a goma (ou engomagem) aplicada aos fios de urdume durante a tecelagem. Sem a desengomagem adequada, os processos subsequentes — como alvejamento, tingimento e estamparia — ficam comprometidos, resultando em tecidos com manchas, absorção irregular de corantes e acabamento de baixa qualidade.

Apesar de ser uma etapa "invisível" para o consumidor final, a desengomagem é absolutamente crítica na cadeia produtiva têxtil. Um tecido mal desengomado pode significar a perda de lotes inteiros de produção. Neste artigo, vamos explorar em detalhes o que é a desengomagem, por que ela é necessária, quais são os métodos disponíveis e como garantir um processo eficiente.

Pontos-chave deste artigo

  • A desengomagem remove a goma aplicada aos fios de urdume para viabilizar tecelagem sem ruptura
  • Existem quatro métodos principais: enzimático, oxidativo, ácido e por embebição em água
  • O método enzimático (com amilase) é o mais utilizado para gomas à base de amido
  • Uma desengomagem eficiente deve remover pelo menos 95% da goma presente no tecido

Por que a goma é aplicada nos fios?

Para entender a desengomagem, primeiro é preciso entender a engomagem — o processo que a antecede e a torna necessária.

Durante a tecelagem, os fios de urdume (fios longitudinais do tecido) sofrem enorme estresse mecânico. Eles são submetidos a tensões repetidas, abrasão contra peças metálicas do tear e fricção entre si. Fios de algodão cru, especialmente, são muito frágeis para suportar esse estresse sem se romper constantemente, o que pararia a produção.

A solução encontrada pela indústria é a engomagem: antes de ir para o tear, os fios de urdume passam por um banho de goma (sizing) que forma uma película protetora ao redor de cada fio. Essa película aumenta a resistência à tração em até 50%, reduz a pilosidade (fibras soltas) e diminui o atrito entre os fios, permitindo que a tecelagem ocorra com velocidade e eficiência.

Tipos de goma utilizados

Os principais agentes de engomagem incluem o amido de milho, de mandioca ou de batata, que é o mais tradicional e econômico. O PVA (álcool polivinílico) é um agente sintético que oferece excelente proteção e é facilmente removível com água quente. O CMC (carboximetilcelulose) é um derivado de celulose solúvel em água. As misturas de amido com agentes sintéticos são cada vez mais comuns na indústria moderna.

A escolha do agente de engomagem influencia diretamente o método de desengomagem que será necessário posteriormente — um fator que as fiações e tecelagens devem considerar ao planejar sua produção.

O que é a desengomagem

A desengomagem (em inglês, desizing) é o processo de remoção da goma aplicada aos fios de urdume. Ela é a primeira etapa do chamado pré-tratamento ou preparação têxtil, que antecede o tingimento e o acabamento.

A goma precisa ser removida porque impede a absorção uniforme de água, corantes, alvejantes e amaciantes. Um tecido com goma residual apresenta manchas no tingimento, absorção irregular, toque áspero e rigidez excessiva. Além disso, a goma dificulta a penetração de produtos químicos nos processos subsequentes.

Eficiência da desengomagem

A eficiência da desengomagem é medida pelo percentual de goma removida. Uma desengomagem eficiente deve remover pelo menos 95% da goma presente no tecido. A verificação é feita com o teste de iodo: aplica-se uma solução de iodo sobre o tecido e observa-se a coloração. Se houver goma residual (amido), a área fica roxa ou azul-escura. Se a goma foi removida, o tecido permanece amarelo-claro (cor do iodo).

Dica

Teste rápido de desengomagem: Aplique uma gota de solução de iodo (tintura de iodo diluída) sobre o tecido desengomado. Se a cor permanecer amarelo-acastanhada, a desengomagem foi eficiente. Se aparecer coloração azul ou roxa, ainda há amido residual e o tecido precisa de novo tratamento.

Métodos de desengomagem

Existem quatro métodos principais de desengomagem, cada um adequado para tipos específicos de goma e condições de produção.

1. Desengomagem enzimática

A desengomagem enzimática é o método mais utilizado na indústria para tecidos engomados com amido. Ela utiliza a enzima alfa-amilase, que quebra as moléculas de amido em fragmentos menores (dextrinas e maltose) solúveis em água, permitindo sua remoção por lavagem.

O processo começa com a impregnação do tecido em um banho contendo a enzima amilase, um agente umectante (para garantir a penetração uniforme) e um tampão de pH (pH ideal entre 6 e 7). O tecido impregnado é então enrolado e mantido em repouso por 4 a 16 horas em temperatura de 60-70°C (processo de maturação ou incubação). Após a incubação, o tecido é lavado com água quente para remover os produtos da hidrólise.

Vantagens

  • Altamente específica — remove apenas o amido sem atacar as fibras de celulose
  • Condições brandas (pH neutro, temperatura moderada) — preserva a qualidade do tecido
  • Eficiência excelente — remoção de até 99% do amido
  • Baixo impacto ambiental comparado aos métodos químicos

Desvantagens

  • Eficaz apenas para gomas à base de amido — não remove PVA ou CMC
  • Requer tempo de incubação relativamente longo (4-16 horas)
  • A enzima é sensível à temperatura e pH — condições fora da faixa ideal reduzem a eficiência
  • Custo da enzima pode ser significativo em grandes volumes

2. Desengomagem oxidativa

A desengomagem oxidativa utiliza agentes oxidantes — principalmente peróxido de hidrogênio (água oxigenada) ou persulfato de amônio — para degradar a goma por oxidação. Esse método é mais versátil que o enzimático, pois consegue remover tanto gomas de amido quanto gomas sintéticas.

O processo envolve a impregnação do tecido com uma solução contendo o agente oxidante, álcali (soda cáustica diluída) e agente umectante. O tratamento é feito a temperaturas de 80-100°C por 1 a 4 horas.

Uma vantagem significativa da desengomagem oxidativa é que ela pode ser combinada com o alvejamento em uma única etapa, economizando tempo e recursos. Esse processo combinado é chamado de "desengomagem-alvejamento simultâneo" e é cada vez mais utilizado em fábricas modernas.

3. Desengomagem ácida

A desengomagem ácida utiliza ácidos diluídos — geralmente ácido sulfúrico diluído (0,5-1%) ou ácido clorídrico diluído — para hidrolisar o amido em açúcares solúveis. O processo é realizado a temperatura ambiente ou levemente aquecida (40-60°C) por 2 a 4 horas.

Apesar de eficaz para amido, a desengomagem ácida apresenta riscos significativos para as fibras de celulose (algodão). Se o ácido ficar concentrado em determinadas áreas do tecido (pontos de contato, dobras) ou se o tempo de tratamento for excessivo, pode ocorrer hidrólise ácida da celulose, enfraquecendo permanentemente as fibras. Por essa razão, esse método é menos utilizado na indústria moderna, sendo substituído pelo enzimático na maioria das aplicações.

4. Desengomagem por embebição em água

O método mais simples de desengomagem consiste em mergulhar o tecido em água quente (70-90°C) por tempo prolongado. A goma de amido absorve água e incha, desprendendo-se parcialmente das fibras. A eficiência é menor que nos outros métodos (70-80% de remoção), mas é suficiente para tecidos com baixa concentração de goma.

Gomas sintéticas como PVA são solúveis em água quente, tornando esse método eficaz para tecidos engomados com esses agentes. A embebição em água é um método econômico e ambientalmente benigno, mas limitado para gomas de amido pesado.

Equipamentos utilizados

A desengomagem industrial é realizada em diferentes tipos de equipamento, dependendo da escala de produção e da configuração da fábrica.

Jigger

O jigger é um equipamento que movimenta o tecido de um rolo para outro, passando repetidamente por um banho de tratamento. É adequado para lotes menores e permite bom controle do tempo de contato. É o equipamento clássico para desengomagem enzimática com incubação curta.

Caixa de impregnação (pad)

O sistema pad consiste em uma caixa com rolos de impregnação onde o tecido é mergulhado no banho e espremido entre rolos para controlar a absorção. Após a impregnação, o tecido é enrolado para incubação (pad-batch) ou segue para uma câmara de vaporização (pad-steam). O pad-batch é o método mais econômico para desengomagem enzimática em grandes volumes.

Linha contínua

Em fábricas modernas de grande porte, a desengomagem é integrada em uma linha contínua de pré-tratamento que realiza desengomagem, purga e alvejamento em sequência, sem interrupção. O tecido passa por câmaras de vaporização, caixas de lavagem e seções de secagem em velocidades de 50-100 metros por minuto.

Informação

Tendência industrial: As fábricas modernas buscam cada vez mais processos combinados (desengomagem + purga + alvejamento em uma única passagem) para reduzir consumo de água, energia e tempo. A desengomagem oxidativa com peróxido de hidrogênio é a base desses processos combinados.

Parâmetros críticos do processo

Para garantir uma desengomagem eficiente, vários parâmetros devem ser rigorosamente controlados.

Temperatura

A temperatura influencia diretamente a atividade enzimática (no método enzimático) e a velocidade de reação química (nos métodos oxidativo e ácido). Para desengomagem enzimática com alfa-amilase, a faixa ideal é 60-70°C. Temperaturas acima de 80°C inativam a maioria das amilases convencionais, embora existam enzimas termoestáveis que operam até 100°C.

pH

O pH do banho deve estar na faixa ótima para o método utilizado. Para a desengomagem enzimática, o pH ideal é 6-7. No método oxidativo, trabalha-se em pH alcalino (10-11). No método ácido, o pH deve ser 2-3. Desvios de pH reduzem a eficiência do processo e podem danificar o tecido.

Tempo de contato

O tempo necessário varia conforme o método, o tipo de goma e a concentração aplicada. Tempos insuficientes resultam em desengomagem incompleta. Tempos excessivos podem causar danos ao tecido (especialmente no método ácido) ou desperdício de recursos.

Concentração do agente

A quantidade de enzima, oxidante ou ácido deve ser calculada com base na quantidade de goma presente no tecido e no tipo de goma utilizado. A concentração típica de goma em tecidos de algodão é de 5-15% sobre o peso do tecido.

Controle de qualidade na desengomagem

O controle de qualidade na desengomagem envolve testes regulares para verificar a eficiência do processo.

O teste de iodo já mencionado é o mais simples e rápido, mas é qualitativo — indica presença ou ausência de amido, sem quantificar. Para controle mais preciso, utiliza-se a determinação da perda de peso do tecido após a desengomagem (tecidos bem desengomados perdem 5-15% do peso original, correspondente ao peso da goma removida) e o teste de absorção de água (um tecido bem desengomado absorve uma gota de água em menos de 5 segundos; se a gota permanece na superfície, há goma residual).

Impacto ambiental e tratamento de efluentes

A desengomagem gera efluentes com alta carga orgânica, especialmente quando gomas de amido são utilizadas. O amido hidrolisado contribui significativamente para a DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio) dos efluentes têxteis — estima-se que a desengomagem represente 30-50% da carga orgânica total dos efluentes de uma tinturaria.

O tratamento desses efluentes exige sistemas de tratamento biológico adequados (lodos ativados, lagoas de estabilização) para degradar a matéria orgânica. Gomas sintéticas como PVA são mais difíceis de tratar biologicamente, mas podem ser recuperadas por ultrafiltração e reutilizadas no processo de engomagem, reduzindo custos e impacto ambiental.

A tendência da indústria é migrar para gomas biodegradáveis e recuperáveis, e para processos de desengomagem que gerem menos efluentes — como a desengomagem enzimática com pad-batch, que utiliza menores volumes de água.

Desengomagem em diferentes tipos de tecido

Algodão

O algodão é o substrato mais comum para desengomagem, já que a engomagem é essencial para a tecelagem de fios de algodão. O método enzimático é o padrão para gomas de amido em algodão.

Denim

O denim merece atenção especial porque o tingimento com índigo é feito nos fios de urdume antes da tecelagem, e a goma é aplicada sobre os fios já tingidos. A desengomagem do denim deve ser cuidadosa para não remover excessivamente o índigo. Muitas vezes, a desengomagem do denim é combinada com a lavagem industrial (stone wash, enzyme wash) que dá ao jeans seu aspecto final.

Tecidos sintéticos

Tecidos de poliéster e nylon geralmente utilizam gomas sintéticas (PVA, poliacrilato) que são solúveis em água quente. A desengomagem desses tecidos é mais simples, consistindo em lavagem com água quente (80-95°C) e detergente.

Misturas (blends)

Tecidos de algodão/poliéster representam um desafio particular porque podem conter tanto gomas de amido quanto gomas sintéticas. Nesses casos, a desengomagem oxidativa ou a combinação de métodos pode ser necessária.

Perguntas frequentes sobre desengomagem têxtil

O que acontece se o tecido não for desengomado corretamente?

Um tecido com goma residual apresentará problemas graves nos processos seguintes. No tingimento, a goma impede a penetração uniforme do corante, causando manchas e irregularidades de cor. No alvejamento, a goma cria uma barreira que impede o agente alvejante de atuar uniformemente, resultando em áreas mais brancas e áreas amareladas. No acabamento, amaciantes e impermeabilizantes não penetram adequadamente. No uso final, o tecido terá toque duro, rigidez e baixa absorção de água.

A desengomagem danifica as fibras do tecido?

Quando realizada corretamente, a desengomagem enzimática não danifica as fibras de celulose. A enzima amilase é específica para o amido e não ataca a celulose. Já os métodos oxidativo e ácido podem causar alguma degradação se os parâmetros não forem controlados adequadamente. O método ácido é o mais agressivo, podendo causar danos irreversíveis se a concentração ou o tempo forem excessivos.

É possível recuperar a goma removida?

Sim, especialmente gomas sintéticas como PVA. Sistemas de ultrafiltração por membrana conseguem separar a goma dos efluentes de lavagem, permitindo sua reutilização na engomagem. A recuperação de PVA pode atingir taxas de 80-90%, gerando economia significativa e redução de impacto ambiental. Para gomas de amido, a recuperação é menos viável economicamente, mas o amido degradado pode ser utilizado como fonte de carbono em sistemas de tratamento biológico de efluentes.

Qual a diferença entre desengomagem e purga?

A desengomagem remove especificamente a goma aplicada aos fios de urdume. A purga (ou cozimento) remove impurezas naturais da fibra de algodão — como ceras, pectinas, proteínas e substâncias minerais — que impedem a absorção de água e corantes. São processos distintos, embora em algumas configurações industriais possam ser realizados simultaneamente.

Quanto tempo leva o processo de desengomagem?

O tempo varia conforme o método utilizado. A desengomagem enzimática pad-batch leva de 4 a 16 horas de incubação, mais o tempo de lavagem. A desengomagem oxidativa em linha contínua pode ser realizada em minutos (tempo de residência na câmara de vaporização). A desengomagem por embebição em água leva de 12 a 24 horas. Na prática, o tempo total desde a impregnação até o tecido desengomado e lavado varia de algumas horas a um dia, dependendo do sistema utilizado.

Compartilhar:
Este artigo foi útil?
Grátis: Guia de 50 Tecidos em PDF

Receba novidades sobre tecidos

Dicas de costura, guias de tecidos e novidades do setor têxtil. Ao se inscrever, receba grátis o PDF "Guia dos 50 Tecidos Mais Usados".

Sem spam. Cancele quando quiser. Respeitamos a LGPD.

Publicidade

Posts relacionados

Indústria Têxtil

Escovação de Tecidos: Flanelagem e Pelúcia

Saiba como funciona a escovação de tecidos, processo que cria superfícies felpudas como flanela e pelúcia. Equipamentos, parâmetros e aplicações.

Indústria Têxtil

Tipos de Amaciantes Industriais para Tecidos

Conheça os tipos de amaciantes industriais para tecidos: catiônicos, silicones, aniônicos e não iônicos. Saiba quando usar cada um na produção têxtil.

Indústria Têxtil

Acabamento Soil Release: Tecidos que Soltam a Sujeira

Entenda como funciona o acabamento soil release em tecidos, que facilita a remoção de manchas na lavagem. Tecnologias, aplicações e vantagens.